Música deste post (é bem melhor com música): "There She Goes", Compositor desconhecido no momento (provavelmente James Moody). Interpretação de James Moody, saxofonista e flautista (1958.
Sobre as músicas do blog... Não devem ser consideradas simples "fundos musicais" para os textos... Foram escolhidas com carinho e apreço, dentre o que há de melhor... São verdadeiras jóias que superam em muito os textos deste humilde escrevinhador... Assim, ao terminar de ler certo texto, se houver música na postagem, termine de ouví-la, retorne, ouça-a novamente se toda atenção foi antes dedicada ao texto... "interromper uma bela música é como interromper uma boa foda... Isso não se faz!..." Por último, se você conhece uma música que, na sua opinião, combina melhor com o texto, não deixe de enviar sua sugestão...
Em cima do muro
Em cima do muro,,,
Tenho sete filhos. D´uns participo mais de suas vidas, d’outros, nem tanto... Mas sempre estou a ver e ouvir, principalmente este último, situações que se repetem — variações em torno de um mesmo tema (preciso me vigiar melhor, estou a usar esta expressão a todo tempo).
Dentre essas, uma que já
se tornou lugar comum, com o endosso das mães, é quando iniciam um novo affaire.
Antes, porém, de
prosseguir, é preciso lembrar, quando
falamos de pessoas maduras, digo assim, acima dos trinta anos, que há
maior predisposição (ou então rejeição total) à busca de um novo relacionamento
quando, por qualquer circunstância, o atual se revela insatisfatório pelas mais
diversas razões.
Aí dá-se início a uma
busca inconsciente, do tipo “a razão diz não, o coração diz sim”. Ora, é
evidente que essas pessoas vivem momentos de indecisão; não raro se encontram
ainda em meio a um relacionamento, mas dá-se o que aqui chamei de “busca
inconsciente”.
A pessoa se abre,
torna-se predisposta a novos relacionamentos e, até mesmo, a aventuras que não
chamaria “amorosas”, mas sexuais.
Que se repetem (e aqui
vem o cantador), eis que:
Ninguem se engana
quando encontra formosa
xana,
da mulher a boa biça,
ou mesmo doce piça,
do homem o instrumento
prá fazer do prazer o
momento
E aí, depois de mês, dois ou três, a
outra pessoa, porque está dando ou comendo, se vê no direito de “cagar regras”
àquela que ainda vive sua indecisão.
“Não pode ficar em cima do muro”,
afirmam as mães a incitar as filhas, ou mesmo os filhos: “isso não é coisa de
mulher direita!”
Sem brincadeira, essa tomada de
posição faz-me lembrar velho pensamento cunhado por Thomas Chandler Haliburton,
escritor, juiz e precursor da criação do Canadá, nascido em Windsor, Nova
Escócia. Disse ele:
"Every woman is wrong until she
cries, and then she is right, instantly" (1)
Se bem que não estou aqui a
especificar se o caso é de homem ou mulher, serve, a expressão, para realçar a
falta de lógica: ora, quando se está num relacionamento, ou mesmo em fase do
seu término, nada é fácil, branco no preto... Diz-se de tudo, faz-se de tudo, a
lógica e a razão pouco falam... No amor não há honra, que me digam aqueles que
tentaram ser heróis nessa seara. Tenho
visto isto aqui no “escritório” de montão. Tudo é cinzento...
Alguns assumem essa dualidade de
situação de forma heróica, com versos verdadeiros, se pretendem bravos e
fortes; outros, nem tanto: refugiam-se em subterfúgios, pelas mais diversas
razões, normalmente não próprias — a bravura, já disse aqui [Pensamentos,
"Alimento à loucura”], é própria dos inconsequentes, raramente nobre —;
busca-se não magoar um lado ou outro, deseja-se, e ao mesmo tempo não, abrir-se mão disso ou daquilo,
quer-se dizer e fazer uma coisa, mas disse-se e faz-se outra; a diplomacia não
é inerente à condição humana, logo sua ausência não depõe contra o carente. Não
importa aí a instrumentação da dualidade: simulação, mentiras, grandes e
rompantes verdades que, de tão verdadeiras, ninguém acredita... Não será isso
uma forma de mentira [Pensamentos, Alimento à loucura] ?
Pode-se, com habilidade, dizer-se tão
somente verdades para justificar-se qualquer coisa, qualquer procedimento, do
mais baixo e reles ao mais altivo. Tomem, por exemplo, a sobrevivência: o quê
ela não justifica? É melhor um covarde vivo ou um herói morto? São mentirias
para se salvar a vida? Quem somos nós para dizer o que é importante à vida de
outrem?
Quando se inicia um novo affaire nessas condições, as
dificuldades se multiplicam, e as dúvidas se elevam exponencialmente... Leva
tempo, senão anos, voltar-se à normalidade. A menos, é claro, que se tenha
assumido o primeiro relacionamento com leviandade, aí tudo se resolve
facilmente! Mas se houve amor, filhos, é complicado!...
Ora, ser bom ou boa de cama, sair para
jantar, agradar e ter um bom papo, não é atestado, nem mesmo indício de coisa
alguma que recomende o progresso da relação à vida do outrem.
Minha filha tem em seu MSN frase que
me diverte, principalmente porque sei que convive bem com o marido...
“Viver é difícil, conviver é um
inferno!”
Mas é bem por aí... A convivência,
fora da cama, é bem diferente: parceiros de cama, se não agradam, despedem-se
e... Pronto!
Mas uma vez que se dá início a um
“relacionamento estável”, de convívio, do dia-a-dia, as coisas não podem ser
assim: não podemos “despedir” o outro por qualquer coisa. Sabemos que, por mais
que certa pessoa goste da gente, em certo momento, voluntária ou involuntariamente,
ela acabará nos ferindo de algum modo, em algum momento. E aí? O que vamos
fazer? Despedirmo-nos como parceiros de cama?
Há, neste caso, de se ter
condescendência, tolerância, como dizia um dos meus pares aos seus clientes:
“casamento é concessão recíproca, onde um cede aqui e outro concede ali...”
Eu poderia, aqui, abordar diversos
aspectos da convivência, do início do relacionamento, etc., mas desviei-me,
retorno ao tema para finalizar:
Nesses casos, em que um dos parceiros
esta saindo ou recém saído de um relacionamento, tudo é duvidoso para ele. Não
tem essa de “ou dá ou desce”. Forçar a barra, nessas circunstâncias, é furo
n’água. O que o parceiro, o outro, já bem definido, se é que é ou está, tem que
fazer, se realmente gostou do outro, é mostrar sua forma de ser, seu
comportamento real, não adianta simular, querer ser aquilo que o outro gosta,
porque um dia a máscara cai.
E dar o tempo que o outro precisa para
autoconvencer-se da conveniência do relacionamento... Se não se quiser esperar,
(olha o cantador:) com os burros vai dar... É melhor levantar âncora logo e
tomar seu rumo sem discussão, pois o amor é sentimento egoísta, não aceita
conversão em amizade.
Olhem, as pessoas não são bobas, e
quando ficam em cima do muro, geralmente têm um motivo para tanto, não digo
aquele motivo aproveitador, de querer tirar partido dos dois lados, mas há algo
de instintivo que as levam a isso...
Nesses casos, despir-se não das
vestes, mas das simulações, que querer ser que não é, e mostrarem-se como
realmente são, talvez seja, dentre as ações humanas, aquela que mais seduz,
profícua para um bom relacionamento. Afinal, já disse alguém que a maior beleza
não é quando se enxerga a nudeza do corpo, mas a nudeza d’alma.
Do mais, seja mais você para
conquistar do que para exigir. A conquista é sempre ampla, irrestrita, enquanto
a exigência limita-se ao exigido.
Por fim, lembrem-se, se o
relacionamento não der certo, antes de criticar o outro, de autocriticarem-se:
na aparência, na coerência, no proceder, na forma geral de ser... Às vezes é
preciso melhorar para conquistar!
1 "Toda mulher está errada até ela
começar a chorar, então ela se torna certa, instantaneamente.”
Fim de ano (Natal e Ano Novo)

Fim de ano (Natal e Ano Novo)
Todo ano, a essa época, ponho-me a escrever sobre o Natal... E, por extensão lógica, melhor dizer cronológica, sobre o Ano Novo.
Temo que, de uma forma ou de outra, acabe por escrever sempre a mesma coisa: “só uma outra forma de dizer” — “variações em torno de um mesmo tema”, diria certo amigo pianista...
Maravilha-me ver pessoas que passaram o ano todo se digladiando, à época do Natal, abrirem os braços e se confraternizarem. Esquecem-se, com bastante facilidade, as lágrimas que fizeram derramar e, com dificuldade recalcitrante, as que derramaram...
Mas não importa! A confraternização vem e invade o coração de todos... Com sorte até depois do Carnaval... Quando acaba a euforia e retorna a realidade.
Os confraternizantes¹, então, engalfinham-se na luta feroz pela sobrevivência e inicia-se um novo embate: “Aquele filho da puta!”... “Acabo com ele!”... “Crápula!”... “Mas fodo com ele!”...
E assim vai, até o fim do ano, quando os sobreviventes, em sublime exercício de confraternização, esquecer-se-ão novamente das liças conspurcantes¹ em que se envolveram a fim de estarem ali, vivos, alegres e felizes.
E os que não sobreviveram? Ou os que se encontram então capengas, pela prostração da humildade e ausência de imposição de força aos seus semelhantes?
Bem, esses foram ou são os fracos. Não lhes caberiam, mesmo, perdoar, não há interesse de com eles se confraternizarem; tampouco há de se falar em perdoá-los, eis que nada fizeram que merecesse perdão.
Enfim, as confraternizações de final de ano, efêmeras, fugazes, são mesmo frutos distorcidos do eudemonismo e epicurismo: perdoa-se ou assim se finge, esquece-se ou assim se simula, não porque esta é a coisa certa a fazer, tampouco porque os confraternizantes¹ mereçam, mas porque nos dá prazer! Desejamos nos sentir melhor e, para isso, quebram-se todos os paradígmas da coerência, da racionalidade. Sentimo-nos, com isso, à imagem e semelhança Dele... O homem, na sua sede de superioridade, não deixou por menos e elucubrou meio de qualificar-se como a imagem e semelhança Dele!
Acaso o conhecem? Sabem como ele é? Já o viram?
Não importa! O que importa é que é fim-de-ano, hora de expiar-se os pecados, eliminar-se as desigualdades, a Ele igualar-se. E se não formos à imagem e semelhança Dele, Ele que, com seu Grande Poder, trate de se parecer com nós... Ou seria Nós?
¹ Neologismos não dicionarizados.
Ombro amigo
Ombro amigo
Sobre meus ombros pesa fardo
Que de todo parece achumbado;
No cinza, as desilusões do desejo,
No peso, o que me leva ao fraquejo.
Carrego sobre meus ombros...
Da vida todos os escombros,
Com pontas a perfurar-me o pescoço.
E bem perto te ouço,
Ainda a chamar-me de amigo.
E dizes: “não procures comigo
Aliviar teus desejos!
Não desejo mais teus beijos,
Aliás, nunca os quis”.
“Qual pedaço de giz,
Desgastei-me na lousa do teu corpo,
E hoje não escrevo mais.
Nem amar sou agora capaz!
Não me chames de querida,
És só um ombro amigo!
No bazar da minha vida,
Só mais um artigo”.
Poemas doídos
Música deste post (é bem melhor com música): "Prayer", Yuko Ohigashi, interpretação Yuko Ohigashi.
Ego sum qui sum
Música deste post (é bem melhor com música): "Kyrie Section of Gregorian Chants", Missa de Angelis, Schola Gregoriana Mediolanensis, Giovanni Vianini, Milano,
Que cidade é essa!
Música deste post (é bem melhor com música): ""Menino do Rio", de Caetano Veloso. À falta de uma versão instrumental adequada, vai aqui uma versão "eletrônica" (razoável). Tenho, cá, a versão instrumental.... Mas tá difícil de achar...
Para se perder um grande amor
Música deste post (é bem melhor com música): "I'm Confessin' (that I Love You)" (also known as "Confessin'" ou "I'm Confessin'," ou ainda "Confessin' that I Love You")", é um standard do jazz. A canção foi inicialmente feita com letra diferente como sendo "Lookin' For Another Sweetie," de Chris Smith e Sterling Grant, e gravada por Thomas "Fats" Waller & His Babies, em dezembro de 1929. Em 1930 a música "renasceu" com a nova letra de Al Newburg, desta vez com a música creditadaa Doc Daugherty e Ellis Reynolds. Louis Armstrong fez sua primeira e altamente influente gravação em agosto de 1930 e continuou a tocá-la por toda sua carreira. Aqui ouvimos uma versão de acordo com o texto, meio reticente, uma interpretação do gênio que era Thelonious MOnk... Não pense que as hesitações e "notas fora" são de um aprendiz, mas bem proprias de quem estava apaixonado... Por uma Baroneza... Falo disso na página de jazz.
Razão para Escrever
— Quanta sensibilidade!
Exclamou ironicamente a voz ao ver-me escrever.
Parei.
Esperei que saísse e, após fechar a caneta, colei, sobre tampa e o corpo, um esparadrapo, de forma a selar o traste escrevinhador. Aquela boca não iria se abrir tão cedo para soltar a matraca da pena de ouro.
E, esquecida, a velha homenagem, porque à época usava-se ganhar canetas de pena de ouro nas formaturas, repousou sob leve poeira, no fundo da gaveta, anos a fio.
Outro dia deparei-me com ela. Resolvi então que já era tempo de ressuscitá-la; tentei abri-la, mas lá estava a velha bandagem sobre o ouro, a lembrar-me da múmia que produzira. Na época usava-se éter para tirar esparadrapo. Surpreso, descobri que as farmácias já não o vendem mais.
Desolado busquei, em meus alfarrábios, minha velha receita de lança-perfume, que de tão velha quase havia evaporado, decidido a destruí-la Para quê mantê-la já que a matéria prima não existe mais?
Não pude, porém, deixar de lembrar os velhos carnavais, que de tão velhos, assim como as lanças-perfumes, evaporaram: autor de marchinhas já não existe.
E nem de marchas pra valer. E nem soldados que marcham: hoje voam em helicópteros, caem sobre as presas guiados por computadores.
Ah! O Computador!
Que letras perfeitas! Várias fontes, várias impressões, toda correção, no singular e no plural!
Repouso o velho traste novamente na gaveta, sua tumba .
Antes, porém, renovo a bandagem, desta vez microporizada, de nylon, não degradável, eterna — múmia é para sempre.
Hoje só escrevo por causa do computador!
Boemia em Tela
Música deste post (é bem melhor com música): "Rondal", de Paulo Vanzolini, interpretação de Valdir Calmon e Orquestra.
Falência Humana
Música deste post (é bem melhor com música): ""Zorbas" (ou mais comumente a "Dança de Zorba, o Grego") é de Mikis Theodorakis. Ela foi baseada em duas outras canções cretenses tradicionais: "Armenohorianos Syrtos" e"Kritiko Syrtaki", compostas por Giorgis Koutsourelis. A versão apresentada originalmente no filme Zorba, o Grego, em 1964, é esta. Foi gravada pela Orquestra popular de Mikis Theodorakis.Prayer".
Num passe de mágica...
Música deste post (é bem melhor com música):"I Cover the Watefront" de Johnny Green com letra de Edward Heyman, foi inspirada no romance escrito com o mesmo nome por Max Miller, em 1932. Aqui a interpretação é de John Birkes "Dizzy" Gillespie (1917-1993), uma figura maior do jazz e precussor do be-bop junto com Charlie Parker e Thelonious Monk.
Assinar:
Postagens (Atom)